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Narrativas


Nunca me esqueço de certo fato surpreendente de minha juventude. Faz tempo, mais de quatro décadas e lembro bem.
Era uma tardinha de quinta-feira, seis de fevereiro, aniversário de nascimento do Padre Antonio Vieira, em semana encostada no carnaval daquele ano.

Recentemente, após terminar o curso colegial, deixara minha cidade natal no Espírito Santo. Morava agora no Rio de Janeiro, em apartamento de um tio na subida do bairro de Santa Tereza, centro da cidade.

Tinha por compromisso matricular-me em algum cursinho de pré-vestibular de Medicina, conforme o gosto de meu pai, gosto distante de meu desejo. Situação incômoda para mim. Que fazer?

Ainda de férias, no Rio passei a freqüentar a Livraria São José, famoso sebo situado na rua que lhe concedia o nome, entre a praça XV de Novembro e a avenida Rio Branco.

Era um grande salão com estantes em todas as paredes, cheio de mesas antigas, mesas e estantes repletas de livros usados, empoeirados e baratos. Num canto, junto à escadinha que levava a um mezanino, ficava o balcão do caixa de cobrança das compras. 

No mezanino, havia poltronas e mesinha com algumas garrafas térmicas de chá e café, mais tigelas cheias de biscoitos. Espaço nobre da livraria reservado a escritores conhecidos, habituais freqüentadores da São José.

Ia sempre a esse sebo, não tanto para compras, mais para ver de longe esses escritores. Atendendo à minha curiosidade juvenil, os observava. Nunca me aproximei de qualquer um deles, entretanto na São José pude ver os mais destacados nomes da literatura brasileira contemporânea.

Na tal quinta-feira, seis de fevereiro, em meio à barulheira musical de um bloco festivo que tomara conta da rua adiantando o carnaval por acontecer no fim de semana, vi pela primeira vez a poetisa Cecília Meireles, o mais suave sorriso que a vida me concedeu encontrar. Entrara na São José acompanhada do escritor João Guimarães Rosa, que já vira antes, mais de uma vez.   

Eis que no mesmo instante aproximou-se de mim um inesperado velhote negro de média estatura, cabelos e barba grisalhos, óculos sem hastes presos no nariz, roupa à moda antiga, tipo que me lembrou alguém sem saber quem.

- O senhor tem pena? – inquiriu-me, trazendo ambíguo sorriso nos lábios, mais um instigante olhar de alguém do passado que interroga o futuro.
- Pena? De que? – imaginei que se penalizava com a desarrumação dos livros empoeirados sobre as mesas de ofertas diante de nós.
- Pena para escrever, sim! – retrucou.
- Ah! Uma caneta? Tenho... – e de imediato passei ao velhote a minha esferográfica.
- Que pena estranha. Nunca vi igual – ele reagiu, surpreso. - De todo modo, se ela escreve, vou usá-la – e pôs-se a anotar palavras rápidas numa folha de papel quadriculado que tirara do  bolso do paletó.

Sem demora, noutro papel, desta vez numa folha branca, passou à limpo o que antes escrevera. Explicou-me então que, ao vir de bonde do bairro onde vivia, justa idéia lhe alcançara a memória.

- É o comecinho de um romance a propósito do ciúme, cupim que corrói a felicidade dos amantes. Quero escrever, porém, se não anoto o trecho repentinamente imaginado, esqueço. – detalhou, ao devolver a esferográfica. – Qual a sua graça? – adiantou-se.
- Álvaro Leme... – nomeei-me assim, sem mais assuntar, com minha atenção voltada para Cecília Meireles no mezanino.
- Bom nome! Que o senhor guie com clara firmeza o leme de sua vida! Sou Joaquim Maria, seu criado! Grato pela pena! – sem dar-me as costas, afastou-se reverente, alcançando a rua.

Logo revi, sobre um surrado volume do romance “Ressurreição”, de Leon Tolstoi, a folha de papel quadriculado onde o estranho tipo rascunhara o dito princípio de seu futuro romance.
Curioso, peguei o papel e nele li o que o velhote escrevera:

Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu. Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos pode ser que não fossem inteiramente maus. Sucedeu, porém, que...”  

- Ora! Joaquim Maria! Joaquim Maria! Claro! Mas, impossível! – exclamei comigo entre a perplexidade com o acontecido e o riso emocionado, após reconhecer o texto, decerto o primeiro parágrafo de “Dom Casmurro”.

Era só o que faltava... aparecer-me na São José o fantasma de Machado de Assis, diante de mim, que não creio na existência de fantasmas, muito menos em fantasmas de vésperas do carnaval.

Rapidinho, deixei a livraria. Fui ao encalço do brincalhão que me pregara a peça. Sem encontrá-lo, retornei ao apartamento de meu tio, confesso que um tanto atormentado.

Deveras o surpreendente fato daquele seis de fevereiro trouxe-me vida nova, precisa lição para minha existência.
Não prestei vestibular de Medicina. Com clara firmeza, guiando o leme de minha vida, desde então entreguei-me à procura do escritor que hoje sou.
Faz tempo!

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Antes, no limiar do Tempo, os homens e as mulheres de todas as idades traziam na face um só olho. Eram governados por severo Deus com dois olhos, Senhor solar do Planalto Celestial e criador dos seres humanos, divindade vigilante que impunha às suas criaturas os mais rigorosos mandamentos, odiava o pecado e punia os pecadores com atormentados pesadelos durante sono sem paz nas horas de dormir. Paz ausente também desde o amanhecer, com o povo ciente do retorno de seus noturnos pesadelos, incapaz de viver sem pecar.

Eis que um dia os homens e as mulheres de todas as idades, com apenas um olho na face, resolveram se revoltar contra quem os governava. Juntos decidiram pecar com a mais intensa constância e propósito permanente, num desafio ao Senhor de dois olhos do Planalto Celestial.

Diante dessa rebeldia da humanidade, o Deus, irado, incapaz de suportar o que mais via, sabedor da insuficiência exemplar de sua punição, os pesadelos semeados no sono das criaturas, decidiu arrancar da própria face seus dois olhos lançados violentamente sobre os homens e as mulheres de todas as idades na Terra.

Um dos olhos desse Deus caiu com força sobre um rochedo, explodiu em mil e um fragmentos de fogo, alcançou as faces dos seres humanos e, mesmo a contragosto divino, nelas plantou um segundo olho, concedendo aos homens e mulheres de todas as idades dupla capacidade de olhar.

Já o segundo olho do Deus jamais foi encontrado por quem fosse, ainda que as criaturas tivessem agora dois olhos, o que semeou estranho temor nos sentimentos de grande parte do povo crente de que esse olho perdido mantinha-se atento em algum lugar da Terra, disposto a punir com mais aguda severidade a existência das criaturas de Deus.

Alguns poucos, descrentes disto, mais sossegados de tais possíveis temores diante do olho perdido da divindade, talvez também não menos inseguros na vida por viver, entendiam que o severo Deus agora apenas vagava desesperado no Planalto Celestial...
...e que num gesto de livre arbítrio derrotado cobrira com as mãos os seus ouvidos, estando desde então cego e surdo, distanciado da história humana. 

Duvidosa controvérsia presente em mim ao despertar deste sonho, inquietante pesadelo.


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Alexandre Magno foi o meu melhor amigo em nosso curso médico durante os anos de 1990 na Pinheiros de São Paulo. Vivíamos juntos nas horas de estudo, nos plantões do Pronto Socorro, em festas e na piscina da atlética.
Colega inteligente, estudante imaginoso, excelente aluno em todas as especialidades não temia ir além da alopatia, interessado pelas mais diversas culturas clínicas de outros povos.     
O que poucos de nós sabíamos é que ele fora criança de orfanato adotada por casal sem filhos. Xandi jamais soube quem eram os seus verdadeiros pais biológicos. Talvez por isso agisse entre nós da turma de modo discreto, mas sempre atencioso e sorridente...
...quem sabe um tanto dissimulado?

Quando cursávamos Medicina, ele namorava apaixonado uma estudante de Enfermagem, também da Usp, com quem pretendia casar, isto até a ocasião em que, no ano de nossa formatura, desconfiado, flagrou essa namorada nos braços e beijos calorosos do enfermeiro-chefe de um ambulatório onde a moça estagiava.

Traído e irado, atracou-se ao vilão sedutor, deu nele alguns socos, quebrou os óculos e dois dentes do rival que deixou sem sentidos caído no chão da enfermaria. 
Daí, vingado, porém bastante amargurado, cuspiu na traiçoeira amada. Deu nela uns tapas e retornou ao Pronto Socorro do Hospital das Clínicas onde cumpria seu plantão de interno.

Processado por agressão em inquérito administrativo na faculdade e na justiça comum viu-se absolvido por alegação de legítima defesa da honra. Na época, testemunhei a seu favor.

Formado médico naquele ano, distante de sua alegria anterior ele não participou das festas de formatura nem ingressou em residência hospitalar. 
Com o diploma, apenas despediu de mim e de algum outro colega. Transferiu-se para o Rio de Janeiro onde, no início, trabalhou em mil e um hospitais, entregue a esforço clínico quase sobre-humano, longe de quaisquer diversões de juventude ou ligação afetiva com quem fosse, nem mesmo com os pais adotivos que o haviam criado.

Dias antes dele viajar para o Rio, num encontro rápido que tivemos, confessou-me que na vida pretendia apenas ficar rico:   
- Apenas rico... muito rico... é só o que me interessa... o mundo que se dane! Na hora certa nos veremos de novo. Aguarde e guarde minha estima por você que bem merece – falou sem mais dizer.
Calados, nos despedimos. Ambos, tristes.    

A principio pouco soube dele e do que fazia no Rio, sempre através de raras notícias trazidas por colegas da faculdade. 
Anos mais tarde me confirmaram que deveras Alexandre Magno estava rico, riquíssimo. Que passo a passo criara uma série de consultórios nas praças dos subúrbios cariocas, pequenas salas de pronto atendimento dia e noite a preços populares com os serviços de médicos recém formados, jovens residentes contratados por ele. 

Além dessa rendosa atividade, entregara-se a jogatinas e especulações compulsivas na Bolsa de Valores carioca, obtendo espertas vantagens na compra e venda rápida de ações em momentos propícios a ganhos. 

Durante dez anos associou esses seus lucros na bolsa a novos investimentos bem sucedidos. Nem mesmo a crise financeira de 2008 o alcançou com prejuízos. Consta que atento previu o desastre e antes da desdita vendeu todas as suas ações pelos melhores preços, num lance de privilegiada intuição. 
Senhor de perspicaz faro para negócios, aproveitou a quebradeira de uns e outros. Investiu esses ganhos em segmentos lucrativos, com o que enriqueceu ainda mais.

Duas semanas antes do Natal de 2014, Xandi me surpreendeu ao telefonar e solicitar um encontro entre nós na mesma tarde em São Paulo. 
Cancelei todos os compromissos para recebê-lo em meu consultório das Perdizes.

Elegante, bonito e bem vestido, ele parecia feliz.
Nessa oportunidade conversamos bastante, mais a respeito de passagens do nosso passado comum, evidentemente sem tocarmos no caso da tal namorada de juventude. 
Pouco falamos de sua vida no Rio. 

Lembramos de nossas aulas, dos velhos professores e de alguns colegas do curso médico, de farras e demais momentos alegres da vida.

Foi uma conversa divertida, distante de maiores comprometimentos. Conversa encaminhada a seu gosto, conduzida por ele de modo habilidoso.

Contou, omitindo detalhes, que prosseguia solteiro.
Quando sugeri que fosse comigo a minha casa, conhecer minha esposa e filhos, jantar conosco, desculpou-se alegando que retornaria ao Rio naquele mesmo dia, já com passagem comprada para a ponte aérea noturna.
Viera a São Paulo movido pelo intuito me rever, reencontrar seus pais adotivos que jamais vira desde que se mudara da cidade e também para acertar alguns assuntos cartoriais, sem mais esclarecer.

Presenteou-me com caríssimo conjunto importado de caneta tinteiro e lapiseira, onde fizera gravar meu nome e o dele, mais a expressão “Por uma amizade feliz”. Presente especial que muito me contentou. 

Sem ter em mãos algo novo para lhe retribuir, dei a Xandi uma placa de prata exposta em luxuosa caixinha de madeira marchetada, objeto antes em destaque sobre minha mesa de trabalho, significativa lembrança da festiva comemoração do décimo aniversário de nossa formatura, quando, mesmo convidado, ele não comparecera.

Fiz questão de frisar:
- É sua! Uma homenagem a este seu retorno até nós! 
Agradeceu o presente que por algum tempo observou calado. Leu os dizeres da placa de prata sem tecer maior comentário além de um suave sorriso aparentemente emocionado. 

Nos despedimos com forte abraço e satisfação sincera.
Nessa hora, acentuei:
- Trate de não sumir de novo, Xandi! Apareça mais vezes, pois é muito bem-vindo! Grato por sua visita!
Atencioso, correspondeu:
- Está em meus planos! Logo retorno a São Paulo! Aguarde tranqüilo!   

Dois dias após a passagem do Natal, soube por um outro colega da Pinheiros que Alexandre Magno havia se matado em seu rico apartamento no Rio de Janeiro, justamente na madrugada natalina, notícia repentina que muito me abalou.

Contou o colega que momentos antes do suicídio, Xandi anunciara por email sua fatal decisão a um contador carioca de confiança, profissional amigo, contabilista de seus negócios. 
Na mesma mensagem, com minuciosa orientação, determinara ao destinatário do email que cuidasse do enterro. 

Adiantou-me ainda, esse colega, que o corpo do suicida estava em velório no Crematório paulista de Vila Alpina para onde fui às pressas. 
No percurso levava comigo estranha desconfiança de que aquele fora o segundo suicídio de Alexandre Magno.

Não me surpreendi ao ver seu corpo deitado num luxuoso caixão de madeira dourada que semanas antes em São Paulo ele comprara para ser usado na cerimônia fúnebre, tudo devidamente determinado na mensagem eletrônica encaminhada a seu contador.

Durante o velório soube que ele não deixara qualquer carta de despedida a quem fosse. Legara um testamento detalhado, endereçando a maior parte de sua fortuna ao orfanato onde quando bebê fora recolhido e criado até sair de lá levado por seus pais adotivos.

No testamento também destinou considerável quantia em dinheiro, mais dois bons imóveis, ao casal que concedera a ele criação e formação quando criança e na juventude. 
Separou com justeza o restante da herança para pagamentos de dívidas e impostos necessários à partilha de seu legado, gastos com as despesas na transferência de seu corpo até São Paulo, mais a cremação. 
Foi o que fez.  

Juntos a seus pais de adoção, alguns de nós de nossa turma de formandos cuidamos de espargir suas cinzas no campus da faculdade. 
Foi o que fizemos...
...contidos em nossas recordações de Xandi.






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 - O Doutor Theo morreu... 
Foi o que ouviu ao chegar em casa.
Sentou em sua poltrona...
...e repetiu consigo:
- O Doutor Theo morreu.
Com os dedos tocou partes de seu corpo.
Percebeu as temperaturas da pele.

Enfiou a mão do coração calça a dentro.
Segurou o saco. O saco, apenas.
O saco, seu resistente saco.
Nada mais encontrou: só duas bolas suadas.
- Meus dois planetas!
Tinha sempre de arranjar alguma coisa com o que se ocupar
e seguir com a caneta de revisar textos de livros no trabalho.
A vida inteira. 

- Você não sabe? O Doutor Theo morreu!
- Já ouvi. Agora só quero mesmo é saber para que servem os meus dois planetas.
Ela nada entendia do que ele costumava dizer.
Trazia apenas a notícia. Aos olhos dele.

Os dedos pelos pêlos.
O corpo enfiado na poltrona:
- Vivo ou morto será sempre a mesma tralha eterna!

Perguntou-se como fora a morte.
Provavelmente, câncer. Câncer corroendo fulminante alguma parte do corpo por dentro através do tempo, esse útero da morte.

Memoriava o que para todos o Doutor Theo sempre fora: o  poderoso, o sempre presente ciente de tudo, embora incapaz de sentir um palmo além de seu nariz bicudo com aquele olhar de quem tudo pode. Daí, morreu.
Esperar o que?

Sabia que seu corpo emagrecia secretamente e se tornava pele e osso com o mesmo olhar para o mundo há milênios.
E ele, ali, naquela poltrona, entretanto: - Como terá ficado o nariz do Doutor Theo? – ruminava sem resposta.
- Você não vem jantar? – ouviu, insatisfeito com sua vã interrogação.

A poltrona generosa prosseguia aguentando as raivas, dele, ainda que não sentisse bem seu corpo que chegava, agora, à hora do jantar: - E o enterro? Quando será? - pacientava-se.

Retirou a mão esquerda de dentro da calça, deixando lá os dois planetas em seu imenso saco.
Olhou a sala. A casa. Tudo conforme posto no lugar.
- Histórias... Carnificinas... - murmurou.

Segurava a caneta com a mão direita: ainda que sempre, que sempre, quisesse ser bom canhoto.
- Você não vem jantar?
Com os pés, tirou os sapatos.
Ficou com os pés em meias:
- Agora, o jantar!  - consentiu e deixou a caneta na poltrona.

- Mas afinal de que morreu o Doutor Theo?
Intranqüilo, perguntou mirando o ambiente até a janta.
Temia a resposta.

- Atropelado... – ela foi precisa.
Ele ouviu e imaginou: alguma coisa mais rápida no tempo. 
Pronto: já não existia mais o Doutor Theo...
... se é que existiu alguma vez.

- Quando? Onde?
Levantou da poltrona com os pés em meias no chão.
Mais os passos até a mesa da cozinha.

Os dois planetas no saco entre as coxas e a vontade de pôr fim àquilo tudo, adentrando na cozinha: cada coisa em seu lugar. Sem mais.

(De diferente, seu rosto vermelho, quente.
Calor que passava à sua mão esquerda ao vê-la.)
- O que você fez para o jantar? O Doutor Theo cozido?

Ela olhou para ele com o mesmo olhar espantado de sempre.
Nunca entendia as perguntas dele.
- O enterro... A gente tem de ir ao velório. Afinal de contas, o Doutor Theo sempre foi...

Agora, essa. Para ele, o que restava?
Velar o corpo. O corpo atropelado pelo tempo.
Mirou a mesa na cozinha. Beterrabas grandes, cozidas, vermelhas, picadas e coroadas com coalhada seca. Arroz. Feijão. Peixe frito. Salada de pepino curto cortadinho. A janta.

Tigelas de porcelana coloridas em cor forte.
O jarro d’água. Tudo posto. Arrumado, conforme.
Em seus lugares, os pratos, os garfos, as colheres. As facas.
Do faqueiro, presente de casamento: o Doutor Theo sempre
nas facas e nos garfos, dissimulado.

Nada mais havia por fazer.
Na poltrona, a caneta. Lá, ficara.
- Você vai querer os seus chinelos?  - perguntou, ela.
Sempre perguntava, ainda que jamais ele respondesse.

Ele: Por toda a janta sentiu seus ombros duros. Suas costas.
Mais o rosto ainda quente: jantando conforme jantava todo dia.
Ela: - Afinal de contas, a gente podia estar um tanto separado. Um tanto afastado dele. Descrente. Mas o Doutor Theo sempre foi um...

-  ...nada! - Os seus dois planetas boiando em seu tolerante saco. A caneta na poltrona esquecida. Mais, o rosto ainda quente. Apenas. Duras penas: - Quando é que eu vou poder dar a minha gargalhada? - respondeu, alterando a voz.

Do prato, ela levantou os olhos, com o mesmo olhar.
- Lembra daquele filme do Carlitos? Você riu muito daquela vez.
- É! No fim havia uma estrada. Em seguida, com a garota, lá foi o Carlitos andando pela estrada. Seguindo adiante.
- Você riu muito. E, feito sempre, me fez mais uma de suas perguntas malucas. Mas riu muito.

- Não recordo o que perguntei. Só lembro mesmo que você não respondeu.
- Pois eu, lembro. Sei muito bem o que você perguntou: “- E se não houvesse a estrada?”, “- E se não houvesse a estrada?”. Você ria e repetia a pergunta.

Mastigava peixe frito e beterraba picada com coalhada seca.  
Os dentes vermelhos. Mais um copo d’água e o pepino cortado.
No rosto, entretanto, o calor.
- Lembro que você nada respondeu.
- Ora. Você com suas perguntas malucas. Quer doce?

Detestava sobremesa.
- O Doutor Theo, então, morreu. Sabe de uma coisa. Eu detesto beterraba com coalhada seca!
- Antigamente, você gostava...
- De que? – quis saber.

Passou os pés pelos pés, sentindo as meias. Com as mãos, segurava garfo e faca: - Eu não vou ao velório dele, porque garanto que ele não vai ao meu.
- Você sempre com essas brincadeiras de mau gosto. Afinal de contas, o Doutor Theo sempre...
- Morreu atropelado? Por quem?  - depressa, interrompeu.

Roçava um pé no outro, roçando as meias.
O café quente. O rosto, quente:
- O que me sobra, além de meus dois planetas e a caneta, é esse meu rosto quente, sei lá eu porquê – inquieto, pensou.

Ela, surpresa: - Dizem que foi um cadilaque. Um cadilaque norte-americano. Um carro antigo. Imagine você! Eu nem sabia que havia um cadilaque norte-americano na cidade!

Ele: - Atualmente sempre há... Mas e se não houvesse a estrada?
- Ora! Lá vem você! Se não houvesse a estrada? Você! Você não ia rir conforme riu no filme do Carlitos!
- Da estrada? Não! Melhor se não houvesse a estrada...

Olhou os olhos dela. Tudo conforme, faz tempo, arrumado e posto em seu lugar. E o seu rosto, quente, inacreditável.
Ela, agora, murmurava:
- Eu não sei por que você continua assim, irreverente. Ele bem que era seu amigo. Vivia sempre pronto a proteger você...
- O Doutor Theo? Mas, morreu! E daí?

-  Ensinou você a andar, a falar, a caminhar na estrada...
- ...e agora foi bestamente atropelado por um cadilaque norte americano... – riu, sem graça, decepcionado. – Falaram tanto que desta vez o moreno foi embora... disseram que ele era o maioral... – pôs-se a cantarolar baixinho, desafinado.
- Deixa de heresia... pára com isso! Cuidado com o que diz. Deus sempre foi grande, mas... – ela interveio, temerosa.
- Um cadilaque norte americano é trem maior, veja só. Quem diria? Matou o tipo, o olhudo que tudo via. Viu?
  
Com os pés tirou as meias dos pés.  Pisou nas meias:
- Sabe de uma coisa. Eu não vou ao enterro dele. Que cara mais descuidado, ser atropelado por um cadilaque norte-americano na estrada!
- Foi na avenida, na praça da Igreja – ela ajeitou. – Ah! Esquece. Faz o que quiser. Eu vou dar um jeito nas coisas aqui da cozinha...

Com a sola dos pés, por fim, pisou o chão.
O cigarro nos dedos, por acender.
Ele sentado. Ela, já de pé.
- Hoje tem filme do Carlitos. Vamos ver? – ainda tentou.
- E as minhas perguntas? Vai entender?
- Acho que sim. Sinto...

O cigarro entre os dedos ainda sem acender.
Os pés no chão, frio. O isqueiro, por fim, aceso.
- Sente porra nenhuma! “Você quer os seus chinelos?” “A gente tem que ir ao velório!” “Hoje tem filme do Carlitos, vamos ver?”. “Eu nem sabia que havia um cadilaque norte-americano na cidade!”. Grandes apostas! Ora!
- E se não houvesse a estrada? E se não houvesse a estrada? E se não houvesse a estrada? Isso lá é coisa que se pergunte?  - nas mãos dela, a tigela vazia sem beterrabas vermelhas. Por lavar.

Do cigarro, baforadas de fumaça. Dele.
A casa arrumada, conforme. A cozinha por arrumar, conforme. Tudo posto em seu lugar: seus dois planetas e mais.
A caneta perdida na poltrona.
O cadilaque norte-americano.
E a morte do Doutor Theo.

Mais essa e ela resmungando ao lavar os pratos:
- Eu só sei que o Doutor Theo foi sempre um pai para todos nós. Um deus para você. Agora, se não vai ao velório dele, se não quer ir, não vai, ora. Mas o Carlitos, o Carlitos, mesmo tendo sofrido um bocado, seguiu com a menina pela estrada afora. Foi andando, com o jeitão dele e dizendo a ela ‘-Agüenta! Nós daremos um jeito’. Isso foi. Isso foi. E você até achou engraçado. Gostou. Até gostou.

Os olhos dele nas ancas dela. Enquanto ela lavava os pratos.
Os olhos dele se perguntando, em silêncio:
-Você ao menos podia, podia, sim, me explicar esse calor vermelho de meu rosto com minhas lembranças e os olhos agora em suas ancas! Você...
(Ela até sorriu, ao perceber.)

Desesperado, observava a fumaça, no cigarro fugindo.
Sentado à mesa na cozinha.
Enquanto ela lavava os pratos.

Não foram ao velório do Doutor Theo.
Nem foram ao filme do Carlitos.
Foram dormir cedo: a estrada...

Ele, sonhando com o que nunca tivera.
Comprando um cadilaque, sabe lá para quê:
- Antigamente, você gostava!
- Do Doutor Theo? Morreu...

Ela, dormindo.
Com o braço esquerdo entre as pernas...
...e a obscura noite sempre.









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...pois é, Celeste, conforme sabe, sou homem contemporâneo, alguém detido numa espiral de culpas tatuadas em nós por sua divina soberba.
Agora, o que acontece - vou contar, não se moleste.
Nossa justa liberdade, se existe, mais exige.

Homem contemporâneo desejo o que ficou proibido por você desde o princípio da história, quando, em seu jardim, meteu-se entre ele e ela, bradou irada maldição, plantou original tormenta, tortuoso labirinto na rede da existência.

Desde então – você não ignora - tudo o que restou, Celeste, não é mais do que um punhado de abóboras, um abobral de cabeças para cortar, abóboras nascendo e abóboras morrendo, se contraindo, abobrando desde sua sentença.

 Abóboras certamente com sementes, mais um punhado de dentes marcando dentadas nas cascas de cada uma delas, a polpa com sementes e a casca toda ferida no suor da terra.

Homem contemporâneo, com a casca toda mordida, espelho o medo e na mordida prima sinto você, Celeste, geada e fogo, nosso temor da geada e do fogo no lodo da vida.

Se encontro mais história nessa história, é a lenda de uma tenda no deserto, tenda de uma princesa e seu escravo, ela comendo tâmaras que o escravo traz.

Tanto mais mastiga tâmaras em sua tenda, conta essa história enfastiada de tâmaras e mais tâmaras que um dia essa princesa, ao  perceber no corpo escravo o desejo de comer uma tâmara do tamanho do mundo, tamanha tâmara quer, ordena e o escravo traz.

Com vorazes mordidas, ela, a princesa, abocanha a tâmara, com mais e mais mordidas mergulhadas na tâmara que o escravo  fornece - tâmara do tamanho do mundo – assim comendo e mais comendo, bocado após bocado com bocarra de princesa.

 Enfim, a princesa, presa à ânsia de sua fome, não percebe que naquela tâmara havia um deserto, no meio do deserto uma tenda, seu escravo e uma princesa comendo uma tâmara do tamanho do mundo e assim comendo assim se comeu, consequente maldição de sua comilança.
(A sorte - se há boa nova na história - é que de qualquer tâmara sempre sobra uma semente.
Pode ser, não sei. Desconheço essa ressalva nessa lenda.)

Homem contemporâneo, de toda essa história de abóboras e tâmaras sobra-me quando muito certa pergunta incessante vinda de meu umbigo, Celeste, o desejo de saber se há mamutes em minha moita, quando, mais atento, por bem da sonoridade me interrogo se amo muito em meu coito...

...e, se me interrogo assim, fica ainda mais difícil a vida aqui, Celeste, quando sinto toda a história se retomando em mim apenas com o propósito de adubar o terreno do abobral.

No mais percebo que é nas sementes – jamais nas cascas feridas - que reside o segredo do possível, por mais que você insista em se meter no movimento de meu corpo com seu jogo de culpas, Celeste.

Daí salva-me alguma anestesia, a paz do limo sobre as mordidas, com a lembrança de uma outra história, a dos elos das pessoas no laço de cada um, rezando lenda que cada um traz um laço desde os nós dos cipós do abobral...

...pois quando cortam a corda - o fio que une àquela que nos gera - cada um fica com seu laço enrodilhado no centro do corpo - após ser cortado da caverna anterior - cada laço com cada um, cada qual querendo encontrar noutro laço um reencontro, sendo mais comum, nessa lenda da história, que o olho para o próprio laço, no costume que se tem, é mesmo um resistente olhar de cego, conta essa história no que a história se embaralha, pois que assim, por mim não me enxergando, só enxergo um outro não no laço de ligação, o que torna mais obscura a vida.

Conta ainda essa lenda que aqueles que se encontram dispostos a unir seu laço a outro laço de alguém para voar em par indo além do abobral, conta essa história que o castigo desses é jamais encontrar seu par, vivendo cada qual em rua paralela uma à outra, num perpétuo desencontro carregado de desejos descabidos, sendo o que mais acontece na cidade do abobral que nos legou, Celeste.

Em meio a isso há os que creem que, para contradizer tal maldição, resta caminhar tranquilamente contra os costumes, indo até o infinito dessa história sem fim, onde paralelas se permitem – quem sabe? - gozar encontro fora da cidade pela estrada com a recusa do desencontro determinado.

Com o ouvido nessa lenda, sinto algo envolvendo e sossegando as mordidas e minhas feridas, crente noutro tempo semente...

...quando sonho com alguém nascendo e afirmando para mim, eu só ouvindo: primeiro quero que você não me dê conselhos, depois que não confunda a minha cabeça com a sua e que assim aguente as conseqüências de seus passos.

Situação em que me perco, pois a bem da verdade o andamento do tempo tem mesmo um ritmo próprio e não o ritmo que se quer, o que minha desejosa precipitação tantas vezes impede entender.

Nessa hora o que de melhor pulsa em mim é não querer entender seja o que for e caminhar sendo porta de minha estrada com justa mensagem coroando a entrada: “Eu gosto de você e desde aqui, mesmo só, demarca as vírgulas os pontos as viradas e as curvas no que surgir, indo até pronto final por suas mãos e com seus pés”.

Porta de minha estrada, livre para andar com a recusa do laço dos costumes, Celeste, desse sonho descubro então que se nasce só para viver na simples certeza do escolher o que o percurso oferece, com precisão o que resta fazer é encontrar encontrar encontrar, somar, multiplicar, associar sem medo e escolher sem os nós dos cipós do abobral.
Precisa revelação.

Até mais, Celeste. Fica em paz. Na ocasião enfim devida, quando você aparecer por aqui - sei que virá - tranquilamente rindo, eu minha casa estando na estrada, te receberei para comer comigo doce de abóbora com coco caseiro sem casca, o que posso fazer e oferecer, algum doce, antes de ir contigo de volta a seu jardim.
Para ti, Celeste, também há braços...
...com meus pés para mim.    






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Eram eles Pepe e Paco, tipos tidos por espertos que moravam numa aldeia junto à serra Nevada em canto de Andaluzia no sul do sul de Espanha. 
Ambos aventureiros prontos a correr mundo cheios de invencionices estavam sempre à procura do prazer com o inesperado ofertado pela vida.  

Eis que em dada ocasião decidiram novamente passar a Semana Santa na cidade de Sevilha.
Sem dinheiro no bolso pegariam estrada a pé.
Despidos de provisões, imaginavam, um e outro, que no meio do caminho encontrariam alguém com vinho e pão para os dois.
- O que fazer? Que fazer? Foi o que sempre fizemos! - Mostravam-se confiantes.
- Claro, a sorte há de prover... – viviam certos que sim.  

Partiram depois do almoço, ambos bem alimentados com a comida de um vizinho da aldeia em que moravam. Almoço que arrancaram do amigo religioso após alguma conversa e promessas de presentes que trariam para ele no retorno de Sevilha.
- Fique em paz, pois da viagem hei de lhe trazer rosário de caroço de azeitona, bom terço abençoado pelo santo Arcebispo da catedral da cidade – Paco lhe assegurou.
- Fique em paz, pois da viagem hei de lhe trazer também crucifixo de bronze igualmente abençoado pelo santo Arcebispo da catedral da cidade – Pepe lhe garantiu.

Comeram tudo o que havia e daí se despediram.
- Mas desta vez não me façam o que no ano passado aprontaram comigo não trazendo o prometido por conta do que contaram, do assalto acontecido no retorno da viagem – advertiu o vizinho na hora da despedida. 
- Claro! Claro! Não faremos... – disse Pepe.
- Não faremos! Claro! Claro... – falou Paco.
Certamente descrente, retrucou o amigo da aldeia em que moravam:
– Conheço os dois muito bem! Vivem sempre com histórias, invencionices que contam para levar vantagem...
Pepe riu. Paco sorriu.

Disto pegaram estrada. Caminharam tarde inteira. Junto do anoitecer de novo já tinham fome.
- O que fazer? Que fazer? – Pepe se preocupou.
Paco se adiantou:
- Claro, a sorte há de prover! 

A esperança chegou quando mais adiante, antes da meia-noite, depararam com cigano numa clareira acampado na beirada da estrada.
- Bravos! Bravos! Bom amigo! Somos homens de fé. Com a graça de Deus vamos à Semana Santa na cidade de Sevilha. Será que o senhor permite dividir o seu abrigo até o amanhecer!? – Paco se insinuou.

O cigano viu os dois com olhar desconfiado:
Um tem cara de safado... o outro, de assanhado – concluiu em pensamento.
Contou que ia a Granada, que acampara por ali à espera de hora certa para prosseguir viagem.  
- Não tenho pressa de ir, pois me sinto bem aqui.

Por fim, armou desafio, teste dificultando o pretendido por Pepe e desejado por Paco:
- Se me contam boa história, um belo conto encantado, concedo pouso a vocês. Poderão ficar comigo, passar a noite na tenda.
- O que fazer? Que fazer? – sussurrou Pepe a Paco.
- Ora, a sorte há de prover! – Paco retornou a Pepe.

Pepe, com gestos de circo, palhaço em picadeiro para alegrar a platéia, pôs-se a bem dizer:
- Isso é fácil, meu senhor. Todo espanhol honrado sabe tramar enredo, inventar bom passatempo com alguma fantasia.  
Era uma vez! – gritou Paco, no intuito de avançar, criar intriga sagaz capaz de agradar o gosto do exigente cigano.
Só não foi além do grito. 

Pepe veio em socorro, sem conseguir esticar qualquer história que fosse:
É... De fato era uma vez... uma vez... uma vez...
- Sim! Uma vez outra vez... E o que aconteceu? – cobrou de vez o cigano um tanto impaciente.

Uma vez, claro uma vez... Um touro... – Paco desemperrou, ainda que só um pouco.
- Um touro? Sim, mas que touro? – o cigano insistiu.
Certamente, um touro louro... – Pepe rimou e sorriu.
Paco entusiasmou-se:
O touro louro de Espanha!

Tomado pela descrença, temendo ser enganado, o cigano reagiu:
- Onde é que já se viu um touro louro, rapaz!? Conte outra, sem mentira!   
- Onde é que já se viu? Evidente que agora, na história que vou contar! – Pepe consertou às pressas.

Paco colaborou:
- Claro! Um belo touro que é louro e tem nome de Cigano! – mas disto não deu um passo ao ver-se interrompido pelo dono da tenda.
- Se pretendem debochar de meu povo, rapazes, penso que é melhor parar. Evidente, sou cigano. Moreno, sou, não sou louro, muito menos sou um touro e meu nome é Juan Sohan, desde já fiquem sabendo! – intrigado reagiu quem antes pediu a história aos dois moços, Pepe e Paco. 
- Calma, senhor Sohan! É apenas um conto o que queremos contar... – Pepe apaziguou.

- A história de um touro, o único touro louro de nossa Espanha, senhor! – Paco não se calou. – Quanto a isso o senhor bem sabe que, quando se conta um conto, nunca é demais inventar. Assim se enfeita a vida, ilumina seu caminho, prova que ela é mais bonita do que a vida vivida. 
E Pepe acrescentou:
- Se o nosso touro é louro, é louro só porque rima, sendo a rima um empate entre duas palavras para agradar quem ouve ou lê conto, poesia.
Hora e vez em que o cigano sorriu com satisfação:
- Contem! Contem de vez! Que seja um conto feliz! – ponderou Juan Sohan.

Desde então Pepe e Paco contaram toda a história do dito touro Cigano. Cada passagem do conto contada por um e outro, tudo bem inventado, frase a frase, ponto a ponto, vírgula se preciso. 
Decerto que impressionava por ser de cor diferente o touro louro de Espanha nascido lá em Galícia – Pepe falou rapidinho.
Um touro grande e sereno conhecido por Cigano. Fazia juz a seu nome sem se deixar pegar por um punhado de homens que o queriam matar numa tourada qualquer – Paco logo completou .
De onde os dois não pararam, prosseguiram com a história que inventavam na hora.

Foi quando fugiu depressa, o touro louro de Espanha.
Cortando muitos percursos, rumou para Salamanca.
 Passando por Barcelona, logo chegou a Madrid, Valência e Valladolid. Justo atravessou sozinho a velha Serra Morena.
 “Corra! Foge, Cigano!” – gritava a multidão nas estradas e cidades. – “Não deixa que te apanhem!” 

(Nas travessuras da história, Pepe imitava o touro, Paco era o toureiro. Parecia uma comédia, pois em seguida um e outro repetiam toda a cena com os papéis trocados, sendo Paco agora o touro, Pepe então sendo o toureiro. E a história, embora curta, além de muito agradar, mais parecia sem fim.) 

Diz que enfim, na caminhada, o touro louro de Espanha alcançou por fim Sevilha.
 Lá tentaram cercá-lo, sendo quando se escondeu no altar da catedral.
Em pleno altar da igreja, Cigano só sossegou diante de um presépio. 
Ajoelhou-se quieto.
Fugitivo, descansava da dura perseguição. 
Na porta da catedral, todo o povo apavorado com o que acontecia.

Um milagre aconteceu. 
Conta a lenda e quem viu costuma contar a todos que de dentro do presépio, em seu bercinho de palha,  ao ver Cigano a seus pés, o menino Deus sorriu. 
E o povo se comoveu. Findou a perseguição. 
Cigano deixou com vida a catedral da cidade. 
O touro louro de Espanha, abençoado por Deus, foi para Serra Nevada, lugar mais belo não há em toda a Andaluzia, sendo encontrado por lá, basta ter sorte e destino de um dia o encontrar.

- Bravos! Bravos! Gostei! Belo touro, certamente!  - comentou Juan Sohan com evidente alegria – Merece o nome que tem! É um cigano valente! Não se deixou deter preso por gente cruel que pretendia matá-lo. Assim faz a nossa gente, os ciganos de Espanha, tantas vezes perseguidos por conta de preconceitos dos que não nos querem bem. Mas tal qual o touro louro, temos a bênção de Deus e nos livramos do mal que abate sobre nós! – completou animado. – Cuidem de dormir aqui, partindo ao amanhecer! – concedeu a Pepe e Paco aquilo que pretendiam.

Paco e Pepe felizes com a reação de Sohan deram passo adiante:
- Gratos! Gratos estamos! – contentes agradeceram, falando ao mesmo tempo. – Mais contentes estaremos se o amigo nos der boa carne e bom pão para comermos agora, mais vinho para beber.
Juan Sohan reagiu:
- Ora! Vocês querem ainda mais por uma história de nada? – mostrou-se contrariado.

- De nada? Que injustiça! É boa história, senhor... História de um touro louro! – Paco salientou.
- Touro que hoje vive em plena serra Nevada, nas mais belas montanhas de toda a Andaluzia! Vá lá para confirmar! – Pepe adiantou, seguro do que dizia. – Não despreze nossa história que certamente gostou, gritou bravos, aplaudiu!
- Merecemos vinho e pão que há de trazer consigo para dividir conosco – com justa oportunidade, Paco, firme, cobrou.

O cigano cedeu, ainda que a contragosto: 
- Podem dormir na tenda. Quanto à comida, o que tenho é um pouco de farinha. Com fermento mais azeite, posso fazer um pão. Vinho não tenho não! – considerou, indisposto, com uma ponta de temor, desconfiado dos dois, pois em plena noite escura tudo pode acontecer.
- Que faça então o seu pão! Onde come um irmão, outro irmão pode comer... – Pepe não vacilou.
- ... E, onde existe pão, carne há de estar à mão – Paco ainda quis mais. 
Pepe e Paco, animados, acreditavam que a sorte de novo lhes proveria. 

O que não aconteceu. 
- Carne também não tenho! – retrucou o cigano já separando a farinha para fazer o pão – E, confiando em vocês, vou dividir esse pão numa divisão bem justa.
- Que assim seja, somos três! – disse Paco.
- É... somos três... que assim seja! – falou Pepe.

Contudo se entreolharam. 
Em silêncio perceberam que a farinha do cigano era só um punhadinho, que o pão de Juan Sohan mal daria para dois. 
E quando o pão ficou pronto foi o que confirmaram.
- É... Até que dá para dois – cochicharam Pepe e Paco escondendo o que diziam.
Mas o cigano escutou e assim se preparou certo de que tramóia vinha pelo caminho.

Pepe armou seu lance:
- O amigo tem certeza de que esse pão dividido vai matar a nossa fome? – perguntou com educação.
Sem aguardar resposta, Paco propôs acerto:
- Que tal fazermos aposta? Dormimos os três agora sem comer o pão quentinho. Despertados na manhã, antes de irmos embora, quem tiver o melhor sonho come então o pão sozinho.
- Ou divide, se quiser... – Pepe acrescentou.
- Não tenho medo de aposta e assim fica apostado num acerto em boa paz, sem usar de meu facão, senão ao cortar o pão - o cigano concordou com velada ameaça.

E daí foram dormir.
Quer dizer... Paco e Pepe dormiram. 
Juan Sohan só fingiu.
Quando ouviu os dois roncando, logo comeu do pão, que partiu em dois pedaços, conforme entendeu ser justo.

No raiar da manhãzinha, Pepe e Paco despertaram já com sonho preparado.
Viram Sohan dormindo, na verdade só ouvindo o que os dois conversavam.
- Vamos contar ao cigano que sonhamos com três anjos que nos levaram ao Céu para um encontro com Deus – Paco combinou com Pepe.
Pepe ainda disse mais:
- Vamos também dizer que, por gosto de Deus, agora o pão nos pertence.
- E que Deus sabe o que faz! – Paco concluiu feliz.

Eis que no mesmo instante Juan Sohan abriu os olhos, bem dizendo, arregalou, olhou os dois com surpresa.
- Ora! Vocês já voltaram? – falou para Paco e Pepe.
- O quê? Voltamos de onde? – Pepe e Paco se espantaram.

Logo o cigano explicou:
- Ah! Deus meu! Então foi sonho o que de fato sonhei? – considerou todo sério. – O caso é que vi três anjos. Os três, chegando do Céu, levaram vocês daqui para um encontro com Deus. Dito e feito, assim vi. Conforme os dois não voltavam, demoravam retornar, resolvi, comi do pão que parti em dois pedaços com meu facão afiado. Peguei meu justo pedaço, desculpem se assim agi, mas minha fome era grande. Peguem agora o que lhes cabe, pois deixei para vocês – e, sem mais acrescentar, pôs–se de vez a dormir, tendo à mão o seu facão. – Que façam boa viagem... – parece que ainda disse, certamente sonolento.

Diante do acontecido, com a metade do pão, Pepe e Paco retomaram a estrada até Sevilha:  
- O que fazer? Que fazer? – Paco interrogou, já nos primeiros passos.
 - Claro, a sorte há de prover! Conforme salvou o touro, há de nos proteger – Pepe comentou sem mais, enquanto se alimentava. 
 - O touro louro de Espanha, conhecido Cigano abençoado por Deus... – Paco lembrou da história e satisfeito sorriu saboreando seu pão.  








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Naquela cidade havia no coração da cidade a estátua de um gigante tal qual uma grande estrela sobre um alto pedestal, estrela de quatro pontas, em cada ponta uma letra de idioma ignorado, nas duas pernas abertas e nos dois braços levantados do imponente monumento, sombra envolvendo a cidade, determinando destinos. 

O povo lá do lugar ia três vezes por dia à praça do gigante. Prestava suas reverências ao sagrado deus de pedra e prosseguia sua vida com esse ato secular, remota obrigação, mandamento registrado num antigo pergaminho em língua há muito perdida,  sendo essa oração bordada com finos fios de linho devidamente entranhados nesse eterno pergaminho de origem desconhecida, escondido das pessoas, mas sempre obedecido por toda a população crente com ardente fé nessa sua saudação.    

A sombra do monumento atravessava a cidade, indo de ponta a ponta, nuvem vasta sempre escura e todos lá do lugar, com promessas e esperanças, pediam tudo à estátua mesmo jamais conseguindo o que se quer conseguir, uns falando para outros “não é tempo, não é vez”, e outros falando ainda “não é bem a ocasião”, mais a grande maioria dessa população, num balançar de cabeças em sinal de concordância, para um dito, quando não, para outro dito também, e desse modo viviam sob a sombra do gigante, crepúsculo evidente com gosto de frustração.

Eis que em certo amanhecer, montado no seu galope, num cavalo de bom porte, um jovem de outras terras adentrou nesse lugar com gritos à multidão sem cessar de gritar “help me toquem help, help me toquem help, help me toquem help”. 

Não sabendo o que fazer para atender ao rapaz, uns e outros deixaram que ele ouvisse canção de nome assemelhado, o que ouviu várias vezes e mais vezes gritou “help me toquem help, help me toquem help, help me toquem help”. 

Houve ainda quem trouxesse outras canções similares, o que não cessou os gritos do jovem na cavalgada. Também trouxeram regalos, vinho, sal e temperos à tensão do aventureiro certamente à procura de alguma nova história para outra história viver – o que ninguém percebia, imaginava ou sabia - sendo conforme chegou cavalgando com seus gritos, em seu cavalo, aflito, índio, amante, guerreiro, que veio àquela cidade na manhã daquele dia.

Ninguém já mais entendia o que o jovem desejava com esse jogo de palavras gritadas em cavalgada e a cidade reunida, lá na praça do gigante com seus braços levantados e suas pernas abertas firmes no pedestal sombreando o lugar, mais assustada ficou com outros gritos do moço avançando em seu desejo: “Eu quero em toda a história fazer história sem sina, sem essa carnificina dessa sina na aventura,  violando violeiro as regras deste lugar. Help me toquem help! Help se toquem help! Multipliquemos a vida para ser bem vivida plenamente iluminada”.

O povo todo na praça, já um tanto apavorado, não vendo no seu destino o cavaleiro guerreiro, sem nada adiantar, muito menos alcançar o que queria o rapaz, pôs-se a entabular: “Se aparece fortuna ou princesa encantada, ele em seu percurso cessava essa amolação”.  Lá na praça do gigante.

Sem apear do cavalo, expondo sua procura, o jovem grita e mais grita à praça da cidade.

“Mas que história você traz e que história quer levar”, clama o povo do lugar num desespero sem fim. 

E ele, no cavalgar, cavalgar, mais cavalgar, em meio ao que gritava, diante de todo o povo, sempre e sempre repetia “help me toquem help!”, sob a estátua do gigante pousando nele o olhar.

Eis que então com seu olhar, justo olhar de ver olhar, vê na estátua do gigante o “help” talvez por lá. 
Sem mais tardar, entretanto, nota que o monumento sombreia seu corpo inteiro com sombra sobre seus braços e também sobre as suas pernas, o cavalo em que cavalga, sua vida viajante. 

Bem logo após perceber o seu corpo sombreado, entende que o gigante pretende ser seu senhor, ocupar todo o seu eu, impedir que ele alcance a história desejada, plena luz em sua vida.

Surpreende todo o povo ao deixar aquela praça indo através da cidade num galope sem parar. Atravessa suas ruas, ruelas e avenidas, cavalga suas distâncias, ora alcançando um canto, ora outro canto alcançando, à procura de canção que iluminasse a estrada de suas ansiedades.
Cavalgada, claro, em vão, sob a sombra do gigante. 

Logo retorna à praça. 
Diante do monumento decide o que fazer.

Sem apear do cavalo, pega uma corda que traz, corda com que desperta acorde dele na mão. Faz na corda um forte laço. Lança no ar esse laço que alcança o gigante, laça seu corpo de pedra.

Aperta e puxa a corda sem cessar de cavalgar.
Com a corda no lugar,  ele puxa para cá, mas o gigante reage, resiste a seu puxão. 
Ele puxa de novo: “Desta vez eu vou puxar bem mais forte do que o ar!” – pensa, sem desistir. 

A estátua se contorce, aos poucos cede e assim tomba, cai de vez em plena praça.
Seu corpo de pedra dura se esborracha no chão em meio à população com o povo todo ferido por tamanha irreverência, ferida agora presente nessa gente escurecida pela sombra do gigante, com o gigante derrubado, seu corpo de pedra agora um corpo todo quebrado, pó de pedra esfarelado...
...e todos lá na cidade nada de nada entendendo, sem a sombra se perdendo.

O cavaleiro montado em seu cavalo cavalga firme e vitorioso ao redor de sua façanha. Grita para todo o povo:   
-“Venham de vez comigo nessa nova viagem além do ventre rachado dessa maldita estátua, gigante que derrubei e clareei sua sombra que não mais nos escurece, tendo luz no dia-a-dia para encontrar desde já o que sempre procurei! Cuidem de me seguir para onde quero ir!”

Ninguém, porém, foi além do medo na ocasião. 
Toda a multidão de gente, de pé na praça perdida, sem saber o que fazer, recusou-se a atender à convocação do jovem que por lá permaneceu insistente com seu grito de incansável guerreiro. 

Eis que então aconteceu algo jamais esperado, pois da queda do gigante, de seu ventre rachado, dessas suas entranhas, entranhas tão entranhadas da estátua esborrachada, destrincadas desse ventre, buraco e triste destino de desfeliz esperança na história intestino das pessoas do lugar, principiaram a sair palavras e mais palavras e mais palavras palavras, palavras  apalavradas por palavras mais palavras palavras assim saídas, saídas e assim jogadas, montoeiras de palavras, palavras empudoradas, pudorentas, fedorentas, palavras sempre palavras na asneira das palavras, tudo palavra cifrada, vendida ou já comprada...

...troca troca com palavras nas entranhas dessa estátua, dessa estátua dessa lenda que se é triste, é engraçada, lenda jamais pensada, palavras amontoando em palavras montoadas, uma enchente de palavras, palavras todas dentadas, palavras tudo facada com a cidade inundada por um lodo de palavras, palavrio apodrecendo, palavras assim fedendo:

“Mas eu não sei que fedelho, que fedentina de espelho essa estátua derrubou” - diz a cidade assustada em cochichos e buchichos, já bem meio empalavrada de palavras soterrada...

...velha cidade perdida num blá blá blá que é de nada, nos grupinhos dos grupões, nos grupelhos dos grupais, gente que fala demais, no falando não dizendo, o povo da mascarada, por medo sempre vivendo sob a sombra do gigante, trama que tanto acontece na mais comum convivência... 

...e, na cidade inundada de palavras palavradas em fedentina fedendo, em tudo mais tudo sendo inundação de palavras com o gigante já no chão, palavras dele saindo...

...e o povo das palavras, nesse ar apodrecido de intimidades perdidas, igualdades esquecidas sem viva fraternidade nas ruas e avenidas de novo clama e reclama, obediente ao costume da vida no dia-a-dia: “Eu te quero, não te quero, te quero mais não te quero, no que eu quero o meu não quero, quero não quero quero, por palavras minha vida para ter o que é meu e não será nunca seu!” 

É só o que diz o povo, diz conforme sempre diz, em conversas de uns e outros diante do que acontece...
...mesmo em meio a fedentina da estátua vomitando só palavras de seu ventre numa história intestino....

...e, com seu olhar de ver o que então acontecia, o rebelde que ousara iluminar a cidade antes toda sombreada, observa tais palavras que formam um lodo grosso sobre os jardins, os pomares, nas calçadas e nas portas, mesmo dentro das casas, de seus quartos e banheiros, nos botecos mais vividos, mesmo em bares de amigos, as palavras inundando, um lodo da cor do sangue do prazer fazendo mangue de palavras pelo chão, dois palmos de lodo então, três palmos de lodo então, no chão todo um lodaçal, todo um lodo de palavras, nessa lenda dessa história se é que a minha memória não falha, não falha, não...

...essa asneira de palavras, uma grande montoeira, em tudo, tudo palavras, e ao povo, se vivendo conforme antes vivia, só palavras mais valendo com isso representar, falar e matraquear, com tanta pose posar sem saber se libertar da vida na escuridão.

Já na cidade inundada com a fedentina no ar, promessas apalavradas, tanto agora, tanto antes: “Espere por esperar, pois quanto eu te quero dar e quanto mais te doar e mais te quero ensinar, gritar e conceituar com palavras coroar e de ti tudo tomar: eu não sei o que de mim mais você pode esperar (endiabradas palavras ditas a toda hora, palavras apodrecidas palavrada apalavrada na teoria arrumada, existência escurecida, assim antes, com o gigante de pé em seu pedestal, assim agora também, mesmo vencido o gigante). 

A cidade já sem sombras, mas alí só palavrada, uma cidade atolada e o jovem em cavalgada agora querendo ar para se retirar, de lá deixar as porteiras daquela inundação, daquele cheiro de asco de tantas palavras podres no chão apalavrinhado.
  
Eis que então percebeu que, sem qualquer cerimônia, feito criança de berço, não precisava temer o que era se perder. 
Por todo o lodaçal de palavras patinava, sem medo de caminhar, sendo aí que entendeu adonde ia chegar com a sola dos seus dois pés patinando nas palavras.

Quando ele mais se sente já mascando essa semente de tudo o que acontecia, ele, no seu dia a dia (não havendo delegado, nem prefeito da cidade, padre ou autoridade que conseguisse impedir a inundação de palavras de mau cheiro alastrada), ele, por cima delas, além do que lhe diziam, tendo seus pés patinando, brincava feito um coelho com as palavras do gigante derrubado em plena praça.  

Já o povo, assustado, o pessoal da cidade, nas palavras se atolava, no mau cheiro afundava, enquanto ele patinava feito brasa voadora, ele não querendo nada, só brincar de patinar mesmo gritando “help” mais por livre fantasia, brincando de patinar, na brincadeira até mesmo, a cavalo ou apeado, se conseguia voar,  ia e vinha ora no ar, ora no chão do lugar.

Só por ele patinar livre do lodaçal de palavras da vida, de repente cada dente das pessoas na cidade nele vê o diferente. Nisto um dedo apressado e outro dedo apontado, mais de uma porção de gente começam a acusar, principiam a culpar, a gritar e perseguir aquele que é diferente, o valente guerreiro que derrubara o gigante, trouxera luz para o povo.

Já na frente dessa gente corre o moço patinando no manguesal   de palavras. Mostra seu coração, mostra seus pés no chão, dizendo sem só falar, dizendo sem só posar. 
Transparente feito o ar, só quer mesmo cavalgar, cavalgar, mais cavalgar, procurando se encontrar enquanto é perseguido pela cidade afundada em montanhas de palavras, lama que invade as ruas, ladeiras e avenidas, templos e residências.  

Prossegue assim a corrida, a caçada ao cavaleiro.
Se não deixa se pegar, o jovem grita e mais grita, tudo em vão de onde está: - “Que tal um de igual pra igual, cada um no cada qual sem a sombra do gigante!” 

Surdo o povo não escuta esse jovem viajante que distante do lugar já procura uma outra estrada bem para além das palavras daquela triste cidade e de seu povo perdido em palavras atolado. Estrada que não se sabe onde encontrará.

Outra história certamente que merece ser contada numa ocasião devida sem a sombra do gigante e suas palavras podres, num tempo que está por vir.

(BN-MINC-BR)